sábado, 20 de junho de 2026

Servidor público amputa o próprio pé para receber R$ 1,5 milhão em seguro

 

O servidor público Vanderley dos Santos Gomes que atuava na cidade de Amélia Rodrigues, no Recôncavo baiano, e amputou o próprio pé para simular um assalto e tentar receber cerca de R$ 1,5 milhão em indenizações, começou a cumprir, em maio deste ano, as penas alternativas impostas pela Justiça. Ele foi condenado na Bahia por fraudar seguradoras.

O caso que ocorreu em 2019 e, agora voltou à tona após Vanderley perder recursos na Justiça baiana e não ter mais possibilidade de recorrer. Ele foi condenado por estelionato a dois anos de reclusão em regime aberto e a pena que foi convertida em prestação de serviços à comunidade por 720 horas e pagamento de prestação equivalente a cinco salários mínimos, no valor de R$ 7.590.

Na época da ocorrência, em 2019, Vanderley disse à polícia ter perdido o membro durante um assalto seguido de sequestro. No período ele também  havia contratado múltiplas apólices de seguro, cada uma com uma empresa referência no setor.

Como foi a farsa?

Em agosto de 2019, Vanderley, então com 26 anos, afirmou ter sido vítima de um assalto seguido de sequestro na cidade de Cruz das Almas. Segundo a versão apresentada por ele à polícia, dois homens armados o obrigaram a entrar em um carro, roubaram dinheiro, celular e pertences pessoais e o levaram até uma estrada de terra no povoado de Mercês, zona rural de São Gonçalo dos Campos.

Ele relatou que, no local, foi agredido, teve os olhos vendados e o pé direito amputado pelos criminosos antes de ser abandonado. Vanderley foi socorrido pela Polícia Militar e levado inicialmente ao hospital municipal, sendo depois transferido ao Hospital Geral Clériston Andrade, em Feira de Santana.

No mesmo dia, policiais localizaram o pé amputado próximo a uma fazenda, junto com uma mochila, sapatos e outros objetos que, supostamente, teriam sido roubados.

Dias após a ocorrência, Vanderley iniciou os pedidos de indenização junto às seguradoras. O valor total das apólices contratadas chegava a aproximadamente R$ 1,5 milhão em caso de invalidez permanente. A atitude gerou alerta nas seguradoras. 

O que a investigação descobriu?

As investigações da Polícia Civil, do Ministério Público da Bahia (MP-BA) e das seguradoras desmontaram a versão apresentada pelo servidor. A principal suspeita surgiu após a descoberta de que, poucas semanas antes do suposto crime, Vanderley havia contratado quatro seguros de vida e acidentes pessoais.

A primeira apólice foi firmada em 17 de junho de 2019 com a Tokyo Marine, com cobertura de R$ 800 mil. Dois dias depois, contratou outro seguro com a Allianz, no valor de R$ 400 mil.

Em 29 de junho, fez uma terceira apólice com a Zurich Minas Brasil Seguros, também de R$ 800 mil. Por fim, contratou um quarto seguro com a Sompo Seguros, com cobertura de R$ 100 mil.

O volume de apólices em curto intervalo de tempo, somado ao rápido pedido de indenização imediato após a mutilação, despertou suspeitas no sistema de inteligência das seguradoras.

Durante a apuração, perícias, relatórios médicos, documentos e depoimentos apontaram inconsistências na narrativa. Para investigadores e magistrados, a história de um sequestro seguido de amputação sem pedido de resgate ou qualquer outra vantagem aos supostos criminosos era inverossímil.

Condenação na Justiça

A Justiça concluiu que Vanderley planejou a fraude ao contratar os seguros e provocar a própria mutilação para receber as indenizações.

Na primeira instância, a defesa pediu absolvição por insuficiência de provas. No recurso ao Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), sustentou novamente que não havia comprovação de que ele tivesse planejado a fraude ou causado a própria lesão.

Em 2025, a maioria da Segunda Câmara Criminal manteve a condenação. A relatora original da apelação votou pela absolvição, mas foi vencida pelos demais desembargadores, que consideraram robusto o conjunto probatório.

A defesa ainda tentou levar o caso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas não teve sucesso. A Justiça baiana entendeu que todos os pontos levantados já haviam sido devidamente analisados durante o processo.

Com o trânsito em julgado, Vanderley foi intimado em maio de 2026 a iniciar o cumprimento da pena.

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