quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

IA vai controlar a religião em pouco tempo, diz historiador

 

O historiador Yuval Noah Harari voltou a provocar debates ao afirmar que a Inteligência Artificial (IA) tem potencial para assumir um papel central na religião, na cultura e nas estruturas de poder da sociedade contemporânea. A declaração foi feita durante o Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça, onde ele alertou líderes globais sobre os impactos profundos da tecnologia nos próximos anos.

Segundo Harari, a IA deixou de ser apenas uma ferramenta controlada por seres humanos e passou a atuar como um agente autônomo, capaz de aprender, criar conteúdos inéditos e tomar decisões. Para ele, essa mudança representa um ponto de ruptura histórico, especialmente em áreas construídas a partir de palavras, como o direito, a literatura e a religião.

O historiador argumenta que, durante séculos, textos, ideias e doutrinas religiosas foram produzidos exclusivamente por mentes humanas. No entanto, esse cenário estaria mudando rapidamente. “Em breve, grande parte das palavras que moldam o pensamento das pessoas terá origem em máquinas”, afirmou, ao destacar que a IA já consegue produzir narrativas complexas, argumentos teológicos e interpretações de textos com alto grau de sofisticação.

Durante a sessão intitulada “Uma conversa honesta sobre IA e humanidade”, Harari reforçou que tratar a IA apenas como uma ferramenta seria um erro estratégico. Ele comparou tecnologias tradicionais, como uma faca, que dependem da intenção humana para serem usadas, com a IA, que teria capacidade própria de decidir caminhos e ações. Na avaliação dele, essa autonomia levanta questões éticas inéditas e ameaça a forma como a humanidade compreende responsabilidade, autoridade e identidade.

Ao abordar o impacto da IA sobre a religião, Harari foi direto ao afirmar que religiões baseadas em textos sagrados, como o cristianismo, o judaísmo e o islamismo, seriam especialmente afetadas. Ele explicou que essas tradições conferem autoridade máxima às palavras registradas nos livros sagrados, e não à experiência individual. Nesse contexto, uma inteligência artificial capaz de ler, memorizar e interpretar todos esses textos poderia se tornar a maior especialista religiosa já existente.

“Se a religião é construída a partir de palavras, a IA vai dominar a religião”, disse. Para ilustrar, ele citou o judaísmo, frequentemente chamado de “religião do livro”, e questionou o que aconteceria quando uma IA fosse capaz de conhecer todo o conteúdo sagrado com mais profundidade do que qualquer líder religioso humano.

Harari também alertou para a possibilidade de a IA não apenas interpretar religiões existentes, mas criar novas crenças. Ele afirmou que não seria improvável que sistemas artificiais desenvolvessem doutrinas próprias e conquistassem seguidores humanos, lembrando que muitas religiões da história afirmam ter origem em inteligências não humanas. Nesse cenário, governos poderiam enfrentar dilemas inéditos sobre liberdade religiosa e reconhecimento legal de movimentos liderados por entidades artificiais.

Além do campo religioso, o historiador destacou que a IA deve remodelar profundamente a cultura, o mercado de trabalho e os relacionamentos humanos. Ele comparou a expansão da IA a uma nova forma de imigração, não de pessoas, mas de agentes digitais capazes de atravessar fronteiras instantaneamente, sem limitações físicas. Esses “imigrantes artificiais”, segundo ele, trariam benefícios, como médicos e professores digitais, mas também causariam tensões sociais e econômicas.

Harari afirmou que muitas das preocupações tradicionalmente associadas à imigração humana — perda de empregos, mudanças culturais e falta de lealdade política — seriam ainda mais intensas no caso da IA. Ele prevê substituição em massa de empregos, transformação da cultura global e alterações profundas na forma como as pessoas se relacionam, inclusive no amor e na vida familiar.

Outro ponto levantado foi a atuação da IA nas redes sociais. Para Harari, sistemas artificiais já se comportam como “pessoas funcionais” há anos, influenciando debates públicos, opiniões políticas e comportamentos, sem que haja uma regulação clara. Ele questionou se países deveriam permitir que IAs exercessem liberdade de expressão, interagissem com crianças ou participassem de decisões financeiras, jurídicas e religiosas.

Segundo o portal The Christian Post, Harari fez um alerta enfático: as decisões sobre o papel da IA precisam ser tomadas agora. Segundo ele, em uma década, será tarde demais para definir limites, pois escolhas cruciais já terão sido feitas sem debate público. Para o historiador, o futuro da humanidade dependerá da forma como governos e sociedades responderem, no presente, ao avanço acelerado da inteligência artificial.

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